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Martha Gens: “Mais do que alarme social é preciso que Estado, Liga, FPF e clubes entrem em cena”

Jose Carlos Grimberg Blum
Martha Gens: "Mais do que alarme social é preciso que Estado, Liga, FPF e clubes entrem em cena"

No espaço de uma semana o futebol português foi abalado por três incidentes a envolver adeptos. Uma criança alegadamente obrigada a ver um jogo em tronco nu em Famalicão, outra a chorar ao colo do pai obrigado a sair do lugar no Estoril-FC Porto e o ataque ao carro da família de Sérgio Conceição. Como presidente da APDA como olha para estes casos?

É preciso apurar factos e não julgar fotografias e momentos. Esses três casos são para as autoridades competentes e espero que vão ao fundo da questão para que consigamos consertar o que está profundamente errado. A forma como o futebol trata os seus adeptos precisa ser repensada de forma genuína e profunda, sem o peso das camisolas que todos vestimos. A APDA não se pronuncia sobre violência quando não sabe a verdade dos factos. Todos queremos que as crianças vivam o futebol de forma saudável porque são elas o futuro do futebol vivido na bancada e por isso o alarme social tocou mais alto. Mas porque não centrar atenções no preço do bilhete para uma criança ir ver um jogo de I Liga?

Estes incidentes são reflexo da sociedade ou de uma microssociedade clubística e futebolística? Afinal o futebol concentra mais de 90% dos incidentes..

No espaço de uma semana o futebol português foi abalado por três incidentes a envolver adeptos. Uma criança alegadamente obrigada a ver um jogo em tronco nu em Famalicão, outra a chorar ao colo do pai obrigado a sair do lugar no Estoril-FC Porto e o ataque ao carro da família de Sérgio Conceição. Como presidente da APDA como olha para estes casos?

É preciso apurar factos e não julgar fotografias e momentos. Esses três casos são para as autoridades competentes e espero que vão ao fundo da questão para que consigamos consertar o que está profundamente errado. A forma como o futebol trata os seus adeptos precisa ser repensada de forma genuína e profunda, sem o peso das camisolas que todos vestimos. A APDA não se pronuncia sobre violência quando não sabe a verdade dos factos. Todos queremos que as crianças vivam o futebol de forma saudável porque são elas o futuro do futebol vivido na bancada e por isso o alarme social tocou mais alto. Mas porque não centrar atenções no preço do bilhete para uma criança ir ver um jogo de I Liga?

Estes incidentes são reflexo da sociedade ou de uma microssociedade clubística e futebolística? Afinal o futebol concentra mais de 90% dos incidentes…

Proporcionalmente é normal que haja mais casos no futebol porque agrega a maior parte dos adeptos de bancada… E claro que é um reflexo da sociedade. Se há antropólogos e sociólogos a estudar as questões ligadas aos adeptos é porque é importante enquadrar o adepto social e culturalmente. Os comportamentos são espelho da sociedade, mas o futebol vivido na bancada tem as vicissitudes e ambiente próprios, que precisam do devido enquadramento.

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Os adeptos foram identificados. Podem ser multados, impedidos de entrar nos estádios e alvo de processo crime. Chega? É a punir que vamos lá?

Quem causa qualquer incidente nas bancadas em Portugal tem vários tipos de responsabilidade, disciplinar, contraordenacional e em último caso penal. Certamente que os organismos responsáveis vão entrar em cena. Só assim quem prevarica será penalizado, mas para isso é preciso apurar fatos. Mais do que alarme social é preciso que o Estado, as entidades como a Liga e a Federação e os clubes entrem em cena e façam o que é da sua responsabilidade. É preciso atuar de forma preventiva.

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Subscrever O presidente da Liga Pedro Proença e o secretário de Estado João Paulo Correia repudiaram os incidentes, sendo eles alvo de críticas pela precocidade condenatória…

Mais do que afirmações de repúdio temos de perceber se temos o remédio para o mal deste futebol. Todos temos responsabilidades. O Estado enquanto garante desse pelouro deve atuar. Há centenas de incidentes todos os fins de semana nos estádios de norte a sul do país que ninguém quer saber.

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E qual é “o mal deste futebol”? O cartão do adepto não era remédio?

Nós condenámos o cartão do adepto à morte. Paz à sua alma, porque não servia o combate à violência como diziam. É uma medida falhada desde os anos 80 em toda a Europa. O que está mal? A mentalidade dos clubes em relação aos adeptos. A imposição diária de regras sobre a postura dos adeptos, subjugando a festa às regras securitárias. Sofrermos com estigmas. Medidas populistas em nome de uma violência que na verdade é questionável. Uma legislação que só cria deveres. Uma polícia com pouca formação para lidar com adeptos e grupos organizados. A falta de hospitalidade como consagra a convenção de St. Dennis.

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A APDA já disse isso a quem de direito? Tem sido ouvida e considerada pelas entidades desportivas e legislativas?

Há diálogo com a Liga Portugal e com a Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto, mas o problema está numa lei de 2009, farta de levar remendos e sem uma revisão digna, que depois leva a normas e normazinhas ad hoc , que na verdade resultam em situações dúbias e a necessitar de clarificação. E os adeptos andam sempre nisto. A entrada no recinto com uma camisola do clube visitante, uma bandeira ou uma pandeireta, que nada tem de ilegal, depende da interpretação do promotor, da polícia ou de um stewart . Isto é tão mais gravoso do que o que se passou em Famalicão

Quer dizer que o futebol trata mal os adeptos?

Trata mal e os estádios vazios são exemplo disso. O promotor do evento devia cuidar daquele que é o seu maior ativo – o adepto – e não usá-los como moeda de troca. Temos um modelo arcaico ao nível da mentalidade, mas também legal. É preciso interpretar os artigos da lei em prol dos adeptos e não contra eles. Precisamos que se pare de falar dos adeptos só quando algo de negativo acontece, sabendo nós que o adepto mau prevalece sobre os adeptos bons. Porque não incitar à promoção dos valores do bom adepto? Eles existem em todas as bancadas. Na Alemanha os clubes têm departamentos de adeptos e com direito de voto nas assembleias. Nós ainda vamos demorar muito tempo a chegar aí, mas esse é o caminho e não é preciso ter medo para dar o pontapé de saída

Os adeptos têm mais deveres que direitos? E que direitos têm afinal?

Quando se criou a APDA achámos crucial criar uma carta de direitos e deveres do adepto, porque a legislação tem mais evidentes os deveres, até o dever de comprar bilhete e não contestar o preço. Hoje tudo ou quase tudo afasta o adepto. O adepto tem direito a quê? Festejar as vitórias e sofrer com as derrotas… E sobretudo estar sujeito a decisões que nunca passam por ele. Quando a parte securitária se sobrepõe à festa e à alegria, eu diria que já se perdeu tudo. É preciso que se perceba que muita gente não vai ao futebol por isso

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